1.
Amor triste desígnio fortificado entre nós mesmos que não perdemos as estribeiras nem corremos ou atiçamos os alarmes de incêndio atrás das portas onde nos humilhamos ao ver aquela dor antiga trancada ao avesso filho pródigo que testemunha morte súbita diante do próprio ente pálido raquítico faccioso nobre ser que algum dia tornará o mundo morada menos suportável e lançada ao fogo do inferno descrito na Bíblia que não nos remete ao passado nem nos acalma ou livra do pecado e o passado me ensina que a impessoalidade do homem que hoje sou é cura quase imediata para certos transtornos de caráter herdados de um avô militar e de uma avó inconformada com a velhice do corpo.
2.
3 de janeiro: momento do perdão sob o tapete. 7 de janeiro: sofisticação nas vestimentas, taça de vinho presa na mão direita. 17 de janeiro: telefonema abrupto do exterior, conversa rápida demais, ilusão em desacordo. 21 de janeiro: finalmente comprei o veneno, Pauline trouxe a filha adolescente, almoçamos na área de serviço. 24 de janeiro: dois copos quebrados, Maurício não controla o ódio interno. 29 de janeiro: a aniversariante foi fria demais com os convidados, mantive a compostura diante de R., o fingimento surtiu efeito. 2 de fevereiro: recusei o convite para jantar, a voz introspectiva e sussurrada de Alfredo me irrita. 8 de fevereiro: a carta a ser enviada para Bruno, o ingrato, foi queimada. 12 de fevereiro: com apenas 12 gotas o veneno é letal?
3.
Você me enterra aos poucos. Você não sabe me enterrar. Você não comparece aos enterros. Não enterra a memória. Você quer ser enterrado sob o som de alguma música grunge. Você enterra os seus amigos mal vestidos. Amigos enterrados de preto. Enterramos quem nos quer bem. Nossos pais nos enterram. Você foi enterrado antes de nascer. Enterrei o meu sexo e você disse que um enterro é sempre doloroso. Todas as putas nas ruas estão enterradas. Usamos drogas para que as drogas nos enterrem. Nosso vício enterra nossos pelos pubianos. Enterramos as idas ao banheiro. Vomitamos como quem se enterra, aos poucos. O telefone que toca enterra a voz que diz alô. Gozamos enterros: ânus, vagina, prepúcio, veias do pênis. Subimos escadas para que o enterro aconteça escadaria abaixo, numa queda. Enterramos o suicídio, sangue enterrando sangue vermelho. Enterramos a continuidade. A continuidade é enterrada. Queremos o prazer, abrimos a boca, gritamos:
– Me enterra, é uma delícia.
(Imagem: Edward Hopper – Woman in the sun)
Antônio LaCarne é sobrevivente das convenções sociais, este conto foi escrito em rápidas pausas no trabalho, entre um fôlego e outro. O autor assina o blog literário: http://antoniolacarne.wordpress.com. Sua frase favorita é: “Os olhos são telhas de vidro”.
