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DAS NECESSIDADES INERENTES

Por Brayan Carvalho

Atire.

A vida que você procura não lhe pertence.

A vida que eu procuro não lhe pertence.

Ela me conta que vê as aves migrarem,

parece saber a cor exata das estações.

Fosse outra época, ambos saberíamos.

O sangue sobe à boca, e tudo muda.

Deixa-se de ser “de leite”; o leite.

Eu tenho leite do deleite.

Boneca de porcelana na estante,

andrógina, “venus as a boy”.

Atire.

Ela deixou um fio de cabelo aqui.

Que não é mais a de antes.

Onde estão os seios dela,

debaixo da blusa vermelha?

Somos apenas nós três nesta casa agora

e eu juro que se fosse hoje

não haveria apenas um fio de cabelo comigo.

Hoje ela tem seios: eu poderia tê-los feito crescer.

Pausa para as coisas amargas.

Desgaste apontando na sola dos pés,

nos ombros largos carregando ar.

Todas elas estrelas distantes agora.

Não há mais um passado que eu encare mais

(não fora de casa).

Tudo entre vinte e nove paredes.

Às vezes eu as vejo como não eram,

mas como eu desejaria que fosse.

Foda-se.

Nasceu alguém agora lá fora

e o ônibus não deixou de passar na rua.

A história que conto não lhe pertençe.

Ela cantou “static”, música tem nome de avião.

O tolo aqui achando que não éramos parecidos.

Atire.

Atire e eu serei agraciado.

Tem aquela foto que eu tirei, preto-e-branco.

Você não deve ter visto. Enfim,

estou aquela foto agora sim.

Sinto falta daquilo tudo em mim,

dizem que o nome disso é fome.

Atire e eu engulo tudo.

Nada vai sobrar pro almoço.

O moço do chapéu naquele bonde;

onde?

Hora de pegar o cigarro, suicida rock’n'roll.

Oh sim, eu estou sozinho, sem aranha alguma.

Gostaria apenas

Recebi visita, matei o que me matava, cantei.

Tive um encontro, ouvi a mesma canção pausada,

vozerio, a calça jeans pareceu querer incomodar,

sou homem mas antes de tudo sou pessoa.

Querem fazer pender a balança. Supremacia.

Nojo, meu nariz cheio de cravos. Hormônio.

Quinze patinhos foram passear. Voltaram marrecos.

Marrentos. Monumentos.

O sexo justifica e centraliza todo texto no contexto.

Eu tenho leite do deleite. Aceite.

Uma colega foi violentada, ele não sabia.

A culpa é dos inocentes? Deus é inocente?

Riram todos do que só ela sabia.

Outra vai ser mãe ainda este ano.

Na hora de ser mulher era gostoso,

agora o esperma tem gosto de fel.

Atire antes que chute.

Aí eu volto pra ontem, nostalgia.

Meu eu contemplativo inconsciente,

querendo gritar, precisando conter-se.

Ela está crescendo widescreen, high-tec.

Só não é reconhecida.

Todas as outras garotas crescem fora de mim,

mas eu vislumbro crescer dentro delas.

Fico maior em parte, o resto congela.

Gosto da sensibilidade da língua alheia.

Nessas horas eu sou Deus.

Nessas horas tudo é perverso.

Atire e engula tudo.

Como se eu não pudesse ser mais sensação,

pus as mãos numa torta que não era minha.

Confesso que tive indigestão, mas estava gostosa.

Ponto. Ponto. Vírgula, ponto. Reticência!

Amanheçe o Capítulo Dois com açúcar diet.

Só cafeína já não mata nem desperta mais,

lembro da foto, lembro da falta e dá fome.

Voltei para onde não estive antes,

eu sempre me revolto em não saber voltar.

Cada segundo da minha vida é uma nota musical,

por vezes estou bemol, noutras sustenido.

Vermelho, amarelo e branco:

são as cores da bandeira em meu tornozelo.

E faz sentido algo que eu digo?

Atire.

Café da manhã às três horas. Da manhã.

A gente aprende muita coisa.

A gente aprende muita coisa.

A gente perde muita coisa.

Café da manhã. Às três horas da manhã.

Bolas de neve em minha mão, bolas que eu nunca vi.

Quinze anos é muito, quinze anos é pouco.

Bom mesmo é quando já se perdeu a conta.

As pessoas nunca atravessam o mesmo abismo duas vezes.

Eu nunca atravesso o mesmo abismo duas vezes.

Nessas horas eu sou Deus. Mate seu Deus, atire.

Ou você dispara esta merda ou eu dissipo. Paro.

Tudo. Tudo vai acabar em breve, assim como começou.

Começou quando eu quis dizer “oi”, e disse.

Meu pedido de contradição: água é óleo no mesmo copo.

Parece que estou na medida exata do meu ser,

do tamanho do ego em que carrego no bolso,

a medida do desgosto que regorgito na boca de Deus.

Abençoado seja o meu sexo e seu prefixo cognato.

A gente vive na esperança de encontrar um amor

e ama na inocência de que não vai perdê-lo:

o amor não cresce, a utopia é quem diminui.

Quebro meus ossos contra a mandíbula, serpente.

Sou um demônio íncubo de mim mesmo.

A gente nunca espera o desespero mas desespera.

É como esperar um ônibus que não vai parar.

É como… não sei como… mas sempre espera.

Atire.

Todo ser humano é uma vadia em potencial.

(Imagem: Sarolta Ban – Surreal 4)

  • Pingback: Alexander7

  • Cvvv

    Quanta “profundidade”….. tsktsktsk