Beth-Hoeckel-02

LUZ, CÂMERA, AÇÃO

Por Leonardo Araújo

O narrador dessa história pede um tempo pra ficar calado, e apenas andar e mexer os braços e também sorrir de vez em quando. Ele quer esquecer as palavras por um tempo; quer assistir um jogo de futebol, sem torcer pra nenhum dos times envolvidos; quer de si um pedido de demissão, mas se fizer isso quem vai pagar o aluguel? Quer viver sem grana e não ser hippie; quer aprender qualquer truque com cartas pra impressionar o garotinho bacana, que todo dia chora e tem que ser arrastado pra ir à escola; quer saber o que há de tão importante em ser importante; e, acima de tudo, quer entender o motivo de só faltar energia na sua rua. Por causa disso, ele tem que manter um pequeno estoque de velas em casa, e no final das contas não recebe nenhum abatimento no condomínio.

Faz exatamente uma semana que ele não vê ninguém. De casa pro trabalho e de volta pra casa. Num desses dias cinza, bem ensolarados, embora, Cláudio conseguiu com muito esforço levá-lo pra conversar no “Divino Lanches”, que era de fato um bar, e dos sujos. Na verdade ninguém entendia muito bem o porquê do “Lanches”, já que o máximo que alguém poderia esperar comer ali era uns poucos tira-gostos. Cláudio queria porque queria lhe contar sobre a mulher que conheceu dias atrás, dançando quadrilha numa das muitas festas de São João que pipocavam por todos os bairros. Nesse dia especificamente, ele estava passando a noite na casa de um amigo no Montese. A mulher devia ter uns quarenta, a julgar pelo balançar dos peitos quando ela dava seus pinotes, e também, o que só veio saber depois, porque ela já tinha um garotão de dezoito anos que morava com a avó. Ele sorriu pra ela enquanto dançava acompanhando o ritmo da música estalando palmas e ela retribui ainda que muito rapidamente pra não acabar se atrapalhando com os passos. Depois que a quadrilha tinha terminado e ele se enchido de cerveja, foi farejando a mulher até a casa dela, e por sorte ela não fechou a porta na sua cara. Muito ao contrário. Ela morava sozinha e os dois puderam passar uma noite bem agradável. Só não foi melhor porque… porque… Cláudio teve que baixar a voz e chegar bem perto do ouvido de Gaspar pra dizer o resto, “Na hora H, eu não consegui levantar! Será que foi por causa das cervejas? O que é que tu acha Gaspar, será que é porque eu tô ficando velho?”.

“É um coisa que acontece na vida de todo homem, e tu não é diferente, é? Vai na casa dela outro dia, sóbrio, e aí manda ver”, mas Gaspar falava sem entusiasmo nenhum, levantando o braço pra pedir a conta, enquanto o Cláudio se encurvava absorto, quase encostando o nariz no copo. Dois dias depois, Cláudio fez outra investida, não na mulher, mas no Gaspar, chamando-o pra tomar uma cervejinha, só uma. O homem realmente precisava conversar com alguém.

Gaspar, então, pra não magoar o Cláudio, que era um bom amigo, decidiu sair escondido assim que o expediente acabou, só pra não ter que inventar outra desculpa sem muito fundamento. Um golpe baixo de qualquer maneira, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Depois ele se acertava com o Cláudio.

Na outra ponta de sua vida – deus, elas nunca se encontrariam? – Gaspar soube de um boato dando conta de que o Ubirajara Nunes estava planejando uma viagem pra fora do país e que talvez demorasse a voltar. Em compensação, o Lucas tinha terminado o mural encomendado, e tinha até perdido uns quilos, de tanta tinta e solvente que ele cheirou e de tanto enjôo que ele sentiu. Com o Eduardo passando uns tempos no apartamento do Gaspar, todo o cuidado era pouco pra não deixar que o Lucas chegasse perto dele. Mas essa tarefa definitivamente estava acima de suas forças.

Afinal, os três se encontraram quando o Lucas, quebrando um protocolo longamente estabelecido entre cavalheiros, apareceu no apartamento do Gaspar num Domingo de manhã, perto das onze horas. Devia estar mal intencionado pra aparecer numa hora daquelas. O Eduardo deu um abraço caloroso no amigo, recebeu um presente da mão dele, num momento de distração do Gaspar, e depois foi se trancar no quarto. Gaspar entendeu o que tinha acontecido e correu-lhe pelo corpo o impulso de botar o Lucas pra correr, o que talvez só piorasse as coisas.

Gaspar, enquanto eu tava pintando aquele mural, que por sinal ficou uma merda, eu pensei no desenho perfeito pra tu usar na capa do teu livro. Surgiu assim do nada. Quando eu tiver um tempinho eu faço o desenho e depois tu aparece lá em casa pra ver.

Ah, cara, guarda teu desenho pra outra coisa melhor. Nada feito. Eles recusaram o livro, mas não tem problema, eu meio que já esperava por isso.

Mas o que foi que eles disseram?

E isso importa?

Na verdade não, mas mesmo assim eu quero saber.

Eles disseram que no momento não estão publicando esse tipo de material.

Só isso?

Não, mas foi basicamente isso.

Eu não entendo qual é a desses caras, eles andam publicando cada porcaria por aí! E os teus poemas são até interessantes, um pouco indecisos, é verdade. Ou como diria o Ângelo, vacilantes.

O Ângelo disse isso?

Por que, algum problema?

Tanto faz.

E tu pensou em tentar com o Ubirajara Nunes? O homem tem contatos…

Não tenho essa intenção, e mesmo que eu tivesse é tarde demais. Tu não ficou sabendo que ele tá com viagem marcada? Parece que vai morar um tempo fora.

É? Aonde?

Deus sabe.

Antes que o Eduardo começasse a discursar, Lucas deixou o apartamento com a bolsa pendurada no ombro. Ela fazia parte do seu corpo tanto quanto suas pernas e seus braços. E o domingo continuaria se arrastando como um rolo compressor amassando e destruindo todos os pedaços de Gaspar que ficavam pelo caminho. Com o coração frio, tinha ânsias de gritar da janela: FODA-SE UBIRAJARA! FODA-SE ALICE! FODA-SE LUCAS! FODA-SE EDUARDO! FODA-SE ÂNGELO! FODA-SE GASPAR! FODAM-SE TODOS VOCÊS!

Quando Gaspar ficava na pior – às vezes, era raro – ele se aferrava a algum pensamento, algum lenitivo que o ajudasse a chegar inteiro ao final do dia. E se agarrava a ele com tanta força que chegava a tomá-lo como algo que merecesse ser salvo do esquecimento, e que, com um pouco de cuidado e alguns ajustes, pudesse se transformar numa daquelas belas frases de efeito lançadas no meio dos jantares, enquanto as pessoas falavam de boca cheia e gesticulando muito. E então ele pegava o bloquinho de anotações, uma agenda velha que não tinha dono, e a rabiscava com uma letra muito humana e cheia de sentimentos nobres e mesquinhos. Dois dias depois quando ele ia atrás de ver no que aquilo tinha se transformado, achava engraçado como podia ser tão fácil alguém enganar a si mesmo.

Nesse dia em particular nenhuma reflexão sobre a existência ou sobre a condição humana ou sobre a vida conseguiu sacudir-lhe a modorra do corpo. Em troca, seu coração monstruoso era vítima de um desejo insolente e encardido, que ele gostaria de manter pra si mesmo. No entanto, minha onisciência só não é maior que a minha indiscrição, e além disso é meu dever ético para com vocês, ó leitores, contar tudo o que sei.

Exatamente à uma e meia da tarde, pra ser preciso, ele quis inundar o mundo com sua merda, até que finalmente alguém o escutasse. Mas aonde esse desejo o levaria? Gaspar talvez soubesse. Porque do lugar em que estava partia um arco, traçado no ar pela grande aranha construtora de teias, que o ligava ao velho que um dia apareceu em seus pensamentos. Gaspar não conseguiu ver seu rosto, pois ele estava de costas, sentado no banco de uma praça, e não havia ninguém a sua volta, nem mesmo um cachorro babando nos seus sapatos. Apenas o velho, ruas abandonadas e a cidade que o compreendia.

A porta se fechou com força, o que fez tremer o chão e as paredes do apartamento. Eduardo havia ido embora, sem dar sinais de que voltaria. Apesar disso era bom estar sozinho outra vez.

Imagem: Beth Hoeckel