caderno de viagem
Do alto a terra é tão extensa
que assim só conhecia o mar
se à noite fico bem quieta
meu ouvido é uma concha
em qual se ouve o rugido
acordei aqui
os pés enfiados
a espera da tua chegada por terra, fumo
até partir do corpo em heterônimos
escrever como o mar que avança
depois de muito retroceder
duas ondas juntando a água que veio de trás.
strike a poet
Tiro fotos da minha casa até acreditar que é uma cidade
sigo abraçando cadeiras entre o olhar imperativo dos
gatos a mão que afaga este problema a materialidade
dos livros ajuda no colegial me chamavam de menina
de outra época meu pai dizia que minha avó era uma
mulher da terra isso resume pra mim toda a poesia
contemporânea de repente ganharam o medo de dizer
coração é preciso paciência e a sensibilidade de um peixe.
Devem me ver como um dragão rasante, os miados
num abraço a gatinha tem fome e cheiro de ser vivo
pela primeira vez em um mês deixo a sala é mais fácil o
mar abrir em dois do que interromper o trânsito é por
isso que não atravesso a rua meio-dia sou o Torquato de
colar de contas descendo as delícias de aves nas mãos ela
pensa em casamento no sol de quase dezembro uma mãe
me olha saindo pelo corredor
até o portãozinho de aço range a filha vai pra escola
a mala de rodinha, vergonha não é a palavra
finalmente, virei artista os dedos sujos de tinta
e o uniforme azul-marinho o cabelo imundo embora
a seda tenha rasgado só consigo desafinar o coro dos
contentes me alimentar com drogas pra me manter
escrevendo acordada e cansada e insuficiente esta melodia
chega o texto ao fim e não reviso, it’s friday I’m in love.
poemas do destino do mar
Meus lábios estão partidos e acho que me apaixonei.
Preciso fazer uma lista das coisas que me importam e dar pra ele.
Abacate com limão ardeu minha boca.
A água do banho estava quente e queimou meus pés.
Nunca ganhei um anel de alguém, ao que parece, ainda estou livre.
E se um dia nosso amor me encher de dúvidas, não saberei como resolvê-las.
*
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato.
Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
*
O céu que nos prometa um ano bêbado
sem por enquantos
um ano que diz ENTÃO MOSTRA
e sacode feito leitoa as tetas que caem
são nuvens
de uma chuva dramática e sem aprendizagem.
Eterno ser sem se apropriar
da impossibilidade de organizarmos
em formas calmas, permanentes, necessárias
tanto você como também eu
ou nós podemos pular e estaremos no alto
através dele, este céu que nos promete
Sou eu o messias e anuncio
mais uma rodada de anos
bêbados.
Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, no dia 12 de janeiro de 1984. Tem publicado pelo Selo de Estimas e Grama o livro de poemas “cantos de estima” (2009), gerado no seu projeto 12 exemplares (http://12exemplares.blogspot.com). Vive em Lisboa.
Nota: Os poemas caderno de viagem e strike a poet fazem parte do livro cantos de estima. Os três últimos poemas são do novo livro de Júlia que está por vir, com o título de poemas do destino do mar.
Júlia de Carvalho Hansen assina o blog http://alforriablues.blogspot.com



