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QUARTO DIA DO NÓIA

O quarto dia do NÓIA começou com a exibição do documentário O Garoto, o Mar e o Velho (2011), de Marisa Merlo. Filmado em Montevidéu o curta registra o momento em que uma criança e seu avô passeiam juntos pela orla da cidade.

Tarkovski dizia que a poesia é, antes de um gênero, uma consciência do mundo, um modo particular de olhar a realidade. Nesse sentido, não há dúvida de que o filme da Marisa não é apenas um documentário. Isso seria dizer muito pouco. Ele é na verdade um lindo poema refletindo sobre o tempo, e, em última instância, sobre a vida, que para o garotinho está apenas começando, e sobre a morte, cada vez mais próxima para o velho.

O mar, o vazio da paisagem e o plano fixo funcionam como um referencial, dando a ideia de permanência e contrastando com o movimento dos dois que caminham lado a lado pelo tempo.

A ação é filmada a uma certa distância, mas com uma ternura contemplativa difícil de descrever. Por causa dela, vendo pouco mais do que a silhueta dos dois contra a paisagem, sentimos a beleza do momento partilhado entre criança e avô, e, para além disso, o brilho de uma pequena verdade.

Mais um trabalho que se apóia na estética fotográfica para sua composição.

O curta A Fábrica (2011), de Aly Muritiba, filmado em 35mm, conta a história de um detento que pede à mãe para levar um celular para dentro do presídio.

É um filme narrativo, com imagens fortes e uma trama envolvente. Filmado dentro de um presídio desativado, a composição das cenas se valeu dessa ambientação para reforçar a atmosfera realista, mostrando a brutalidade daquele espaço preenchido de silêncio e angústia. Não há quase diálogos entre os personagens, endurecidos pelo sofrimento e pelos reveses da vida.

Os cortes conferem bastante agilidade ao filme, e a tensão dramática aumenta à medida que aquela senhora insuspeita vai passando por uma série de revistas até finalmente conseguir levar o telefone ao filho.

A tensão dramática acumulada durante o filme se transforma no momento em que nos é mostrado a verdadeira utilidade do telefone para o presidiário: ele apenas queria falar com a filha no dia do aniversário dela, já que a menina acreditava que o pai na verdade trabalhava em uma fábrica.

Em O lugar de todos (2011), da cineasta Laura Montalvão, seguimos junto com a câmera o roteiro que a personagem percorre andando pelo centro de Curitiba à noite. A paisagem urbana é repleta de seres que só aparecem quando as luzes baixam e as pessoas “de bem” estão descansando em casa.

Cruzam o caminho da personagem michês, travestis, drogados, e sentimos que ela está confortável entre eles, porque ela também é uma criatura da noite

Essa é uma temática que me toca particularmente, e talvez por isso eu tenha ficado mais entusiasmado com o filme do que as pessoas com quem conversei. O impacto do curta parece ter se enfraquecido em um dia de exibição com participantes particularmente fortes.

Monja (2011), de Breno Baptista, nos trouxe uma interessante experiência de construção narrativa sem diálogos, fazendo com que o corpo da atriz, seus gestos, o espaço onde se coloca, o modo com se relaciona com os objetos, falassem por ela.

Um filme que não teve medo de ousar ao expor a intimidade da personagem, mas tomando o cuidado de não explicar suas ações. Por isso, nos mantemos atentos e curiosos até o fim, tentando entender o que se passa dentro da personagem que quase sempre está sozinha consigo mesma, e parece não sofrer com isso.

A menor distância entre dois pontos (2011), de Breno Nina e Elias Guerra foi um dos filmes mais divertidos de toda a mostra. Despojado, irônico, anárquico, ele conta a história de dois amigos que resolvem explodir a ponte Juscelino Kubitschek em Brasília. Para isso, eles se colocam um em cada lado, esperando o sinal para a detonação: um carro vermelho, um carro amarelo e um verde.

Enquanto isso não acontece, eles se deparam com dois personagens inusitados: um velho pedalando sua bicicleta desde Recife e uma jovem suicida, que ameaça se jogar da ponte. A estética televisiva utilizada pelos diretores destoa um pouco da tendência, marcante nesse festival, em fazer uso da estética fotográfica – isso acabou se mostrando muito apropriado à história, conferindo um clima leve e ágil ao filme, coerente com seu tom despojado.

A interação dos “homens-bomba” com a suicida e o velho, em cada lado da ponte, acabou desviando um pouco a narrativa da trama principal, ou seja, a missão de explodir a ponte. Isso deixou a história, como um todo, meio “quadrada”, precisando de alguns encaixes para funcionar.

Já no final do filme,  antes da detonação final, uma Brasília amarela dá prego e os quatro personagens se juntam para empurrá-la. Temos aí talvez uma referência clara à imagem do povo que tem que “empurrar” o país para frente, porque a máquina administrativa não funciona. Esse simbolismo, que soa meio batido, parece apontar também, menos explicitamente, para a leniência do povo com o cenário político, no sentido de que ele prefere continuar levando o país nas costas, ao invés de lutar para transformá-lo.

Zeit to the Geist (2011), de Diogo Faggiano, conta de maneira bem-humorada a batalha quixotesca travada por um grupo de revolucionários contra um inimigo invisível: o progresso.

Os dois guerrilheiros, juntos com uma espécie de profeta, passam o filme inteiro atirando balas imaginárias, e delas fugindo, mostrando como a disputa entre o progresso e o que poderia se chamar de espírito se dá num campo de batalha impalpável, mas nem por isso menos concreto.

Para contar essa história, além das imagens por ele filmadas, aliadas a um conjunto visual muito bom, o diretor usa imagens de arquivos (foguetes decolando e até uma foto da Laika) para montar o mosaico cinematográfico que é o filme. Para tornar isso possível, o curta contou com o trabalho de um excelente montador, que o deixou redondinho (infelizmente, não lembro o nome do cara para dar os créditos propriamente).

Não bastasse isso, a obra tem tantas referências que seria preciso um longo ensaio para dar conta de todas elas. Cinema marginal, filmes dublados e Week-End são as que me vem à cabeça agora. O curta tem o mérito de utilizá-las sem ostentação, como parte indissociável dele. Não à toa o diretor, nos créditos finais, faz uma lista das suas influências.

É preciso destacar também que além de tudo isso, o filme divertiu muito e deixou o público envolvido com história, o que é especialmente difícil num filme experimental. E na minha modesta opinião, foi o trabalho mais completo de todo o festival.