A segunda noite da mostra competitiva foi melhor que a primeira, e contou com uma grata surpresa que eu falarei depois. Dessa vez, a exibição começou no horário, e foi possível conversar mais sobre os filmes com seus realizadores. O tempo teria sido ainda melhor aproveitado se algumas perguntas tivessem sido um pouco mais objetivas. Os filmes não vão ser comentados em ordem, porque quero destacar algumas tendências que percebi no festival desse ano.
O documentário Depois que o trem passar (2009), do curitibano Solano Trento, abriu a noite, retratando a vida de uma família que mora praticamente em cima da linha do trem. As imagens são captadas pela câmera com muita sensibilidade, mostrando atos banais, do cotidiano.
Os planos são amplos e limpos, agradam o olhar, e possuem a duração certa, não se estendendo demais. O diretor tem o mérito de não esgotar a imagem, como costuma ocorrer com planos longos que são usados sem tanto cuidado. Se isso acontece, o que era para servir ao filme, passa a agir contra ele. E o espectador sente como se estivesse diante de uma pintura, com o cara que a pintou lhe segurando pelo braço e dizendo, “Você vai ficar olhando pra minha tela até eu dizer basta!”. Em outras palavras, o que era para ser um recurso dramático, vira apenas tirania do diretor, um recurso puramente estilístico que muitas vezes não acrescenta nada.
Solano consegue fazer uma boa captação de som, nos deixando praticamente dentro da casa, na hora que o trem passa levando tudo com ele.
Vou falar agora dos três filmes que partiram da apropriação de material da intimidade dos próprios realizadores para a construção da obra, seja revisitando registros do passado e fabulando a partir deles, ou utilizando-os para expressar algo universal.
Próxima Parada (2011), de Samuel Brasileiro, conta ou reconta a história de pessoas que todo dia cruzam o caminho do narrador, sem que ele saiba quase nada delas, a não ser a parada onde descem.
A ideia é boa, trabalhando a questão da alteridade, de tornar o outro visível, por meio dos registros de um narrador que espreita, documentando tudo sem ser percebido pelas pessoas. O filme, no entanto, não é atraente, não envolve.
Tenho notado que esse é um problema que se repete com freqüência com os jovens cineastas daqui: há uma certa dificuldade de transformar excelentes ideias em bons materiais. Talvez isso se deva em parte a uma tendência academicista de fazer ensaios teóricos dentro do próprio filme, e isso não raro é chato, e só interessa ao autor da obra. O Godard, por exemplo, é um cara inteligentíssimo, entende de cinema como poucos no mundo, mas tem certos filmes dele que são difíceis de ver. Acho que tem que se buscar um meio termo nisso aí.
A namorada do meu pai (2011), de Luciana Vieira, surpreendeu, principalmente a quem, como eu, não tinha lido a ficha técnica do filme antes de sua exibição. Apenas trinta e quatro segundos de imagens e pronto. Usando o arquivo de seu pai, filmado em Super 8, Luciana resgata a imagem de uma mulher que aparece por apenas quatro segundos. Quem será ela? O que ela faz? “Ela poderia ter sido minha mãe, mas não foi”, diz a narradora.
Experiências radicais são sempre interessantes, porque comovem, proporcionam debates acalorados, acirram os ânimos. Nesse caso, o registro tinha a intenção de discutir o tempo na obra cinematográfica. Como disse a Lara, roteirista do filme, “queríamos mostrar que o filme tem que durar o quanto tem que durar”. Ok. Discutir os limites da arte é sempre importante e saudável. Na literatura as experiências com os poemas pílula, e mais recentemente com o microconto, cujo principal representante em nosso Estado é o escritor Pedro Salgueiro, discutem uma questão parecida: a duração da obra de arte.
Mas a experiência com o nanocurta, pelo movimento e fluidez que caracterizam a obra cinematográfica, às vezes pode não conseguir sair do plano meramente formal. No caso do poema pílula e do microconto, apesar de seu tamanho, estão fixos no papel, podendo ser lidos e relidos milhares de vezes. Já com o cinema, isso não é possível, e pode-se perder um pouco da substância da obra.
Em meio a tantos outros filmes, confesso que mal consegui ver o curta de tão rápido, e que nenhuma imagem sua ficou na minha cabeça. O comentário do realizador homenageado e membro do júri do festival, Allan Ribeiro, ilustra esse ponto. Em tom de brincadeira, ele disse que a diretora tinha sido “egoísta”, em dar tão pouco ao espectador. Essa foi exatamente a minha sensação. Em resumo, como experiência formal o filme é bacana e levanta questões interessantes, e talvez funcionasse melhor se tivesse sido exibido logo no início.
A surpresa da noite ficou por conta do Vó Maria (2011), do curitibano Tomás Von der Orsten. Usando apenas uma fotografia de sua bisavó, se não estou enganado, e as lembranças que três gerações seguintes de mulheres tinham dela (filha, neta e bisneta), o realizador conseguiu tocar uma das maiores angústias humanas: a inevitabilidade do esquecimento, o medo de desaparecer sem deixar vestígios.
Para isso se valeu de um recurso bastante criativo. À medida que as gerações se distanciavam e as lembranças se enfraqueciam, a foto ia sumindo aos poucos, até desaparecer por completo.
No momento da fala da filha, estamos tão próximos da imagem que mal podemos saber o que estamos vendo ou do que o filme se trata. A seguir, um rosto vai surgindo na tela, enquanto a neta vai falando já sem a mesma proximidade da primeira, até que, por último, a fala da menina denuncia o enfraquecimento da memória da mulher registrada na foto. Os depoimentos que nos dão acesso as lembranças naturalmente vão perdendo o calor com o passar dos anos, até virarem apenas um vestígio, frio e distante.
Em última análise, é uma obra sobre a precariedade da nossa existência, sobre nossas tentativas fracassadas de alcançar a eternidade. Exemplo de filme simples, mas ao mesmo tempo profundo e tocante, que se vale da forma apenas como meio e não fim.
Os outros três filmes da noite – Descompasso (2011), Mar Exílio (2010) e Pétala (2010) – possuem um apuro técnico de impressionar, o que tem sido a tônica dos trabalhos do pessoal do sul e do sudeste que estão participando do festival.
Decompasso (2011), de Jasmim Tenucci, narra a história de Lúcia, uma mulher flagrantemente deslocada, que entende o mundo através dos sons. A personagem parece constantemente acenar da margem de um abismo aos que ficaram presos do outro lado, a fim de lembrar-lhes de sua presença, de que está ali, querendo se comunicar com eles, mas ninguém parece estar muito interessado nela.
A personagem podia ter sido melhor construída, principalmente porque é ela quem carrega o filme. O trabalho gestual da atriz, a fim de mostrar que ela compreende o mundo pelos sons, me pareceu um pouco exagerado e redundante, e no mais achei Lúcia um tanto artificial. Se a característica ressaltada anteriormente tivesse sido trabalhada de maneira mais sutil, acho que poderia ter contribuido muito para o filme, ao qual faltou um pouco de graça.
O próximo filme, Mar Exílio (2010), de Eduardo Mororó, ao contrário do anterior não é apenas uma boa obra tecnicamente.
O filme possui várias camadas. A fotografia é muito bem trabalhada, numa tonalidade azul, que intensifica a presença da água no filme. As imagens são de uma beleza incrível, especialmente a cena em que o menino permanece parado olhando para o mar, enquanto a maresia passeia pelo seu rosto como uma névoa.
O curta trabalha intensamente com as dualidades aberto/fechado, felicidade/angústia, leveza/peso, claro/escuro, amor/neurose. Quando João está com sua amada, os planos são abertos, claros, mostrando a praia. Há o vento soprando, sorrisos, a suavidade do toque, o amor.
Mas quando João tem que lidar com a ausência dela, a temperatura da luz muda, e ele é jogado dentro de um quarto escuro, fechado, sendo atormentado pelas lembranças do amor vivido na areias e nas águas do mar. Os gestos são bruscos, o personagem mergulha num sofrimento destrutivo, ele perde a razão. E na tentativa de se refugiar de seu sofrimento, João retorna à água, mergulhado na banheira ou enfiando a cabeça dentro da pia transbordante. A água é tudo o que restou do seu amor, sem o qual ele não consegue continuar.
Mesmo no momento em que a amada está próxima dele e tudo parece estar bem, João deixa transparecer uma fragilidade profunda, mostrada com muita sensibilidade e delicadeza pelo diretor. Em momento algum o filme cede à armadilha do óbvio, do lugar comum. A parte “escura” do curta ruiria não fosse a necessidade que João tem de se sentir acolhido por esse amor, como uma criança que se abriga nos braços da mãe. Ele é o menino franzino olhando o mar.
A música também agrega sentimento a tudo isso, servindo como mais uma camada a compor a tessitura dramática do filme.
O último curta da noite, Pétala (2011), de Vitor Dourado, vai buscar inspiração na obra de Sylvia Plath, para contar a história de Clarice, uma fotógrafa grávida que parece perdida dentro de sua própria vida.
Uma de suas principais qualidades é a captação dos sons, que mais do que a própria história, faz o espectador se sentir dentro do filme. Ouvimos com nitidez o ‘clic’ das portas se fechando, o filme sendo enrolado na máquina fotográfica, os passos no chão. A ambientação do filme também é trabalhada com cuidado, reunindo elementos de várias décadas diferentes, conferindo um tom atemporal à história. A fotografia é muita rica, repleta de cores, que são ao mesmo tempo vivas e contidas.
O filme é bastante estilizado, mas, de outro lado, seria interessante ver o suicídio mostrado com menos tratamento, menos glamour.
No debate, o diretor afirmou que o filme também discute o peso da gravidez para a mulher. Mas, pelo que pude perceber, o fato de Clarice estar grávida parece pouco ou nada interferir no caminho da personagem, a não ser pela saliência na barriga. Ela sequer hesita em puxar o gatilho e acabar com a vida dos dois. Além disso, achei o filme um tanto confuso, ao falar de muita coisa ao mesmo tempo. Se ele tivesse ficado mais enxuto, com menos informações, acredito que teria funcionado melhor, principalmente apoiado por suas evidentes qualidades técnicas.






